Iberê Périssé

A busca pelos animais feridos em meio ao fogo no Pantanal

11 de setembro de 2020

Grupo de veterinários se junta para ajudar animais gravemente machucados e desidratados pelos incêndios que consomem há mais de dois meses o Pantanal.

O Pantanal arde. E chora. Do começo do ano até agora, 2,5 milhões de hectares já foram queimados, sendo cerca de 1,1 milhão no Mato Grosso e 1,8 milhão no Mato Grosso do Sul. Ao longo da Transpantaneira, porta de entrada do Pantanal matogrossense em Poconé, a floresta sucumbiu.

Confira a videorreportagem feito em parceria com o The Intercept Brasil.

São poucas as áreas verdes que resistiram aos incêndios na estrada de terra de 160 km. Os animais correm para onde é possível se refugiar. Muitos ficam à beira da estrada. Outros encontram áreas de corixos e ficam ali, próximos à água do rio. Lugares assim são como um oásis no deserto que se formou em uma das maiores extensões alagáveis do planeta, já que o bioma também sofre com a pior seca dos últimos 47 anos. Sobreviver é o desafio imposto pelo homem aos bichos, que veem a sua casa queimando por ação humana. 

Mas é também a ação humana que vem tentando diminuir os impactos do fogo para a fauna. A reportagem acompanhou um dia de resgates de animais feitos por voluntários, em sua maioria veterinários, que vivem o dilema de comemorar o salvamento de uma vida e suportar a frustração de chegar quando já é tarde demais.

De acordo com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o Mato Grosso é o estado com maior número de focos de calor. De janeiro a setembro, já foram identificados 25.081 focos maior número em 10 anos que podem representar incêndios. Esse cenário atinge em cheio o Pantanal do estado, que já teve 1,2 milhão de hectares consumidos pelo fogo desde o início do ano, de acordo com o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA). “A biodiversidade aqui é surreal. Eu nunca vi tantos animais encurralados, morrendo de sede e fome”, desabafou Juliana Camargo, presidente da AMPARA animal, organização que está atuando no resgate e atendimento aos animais silvestres ao longo da Transpantaneira.

“Estamos espalhando cochos e conseguimos apoio do Atacadão que tem doado as frutas que estamos espalhando. Mas isso é só contenção!”, afirmou Juliana, expressando a sua aflição em ver o fogo que já atingiu o Parque Estadual Encontro das Águas, território de 108 mil hectares com a maior incidência de onças do mundo e que, até o último dia 7, contou com apenas 122 brigadistas para lidar com o incêndio.

Para Walfrido Moraes Tomas, do Laboratório de Vida selvagem da Embrapa Pantanal, ainda é difícil mensurar os impactos desses incêndios à fauna do bioma. “Não há informação baseada em dados que permita quantificar o impacto dos incêndios sobre as populações de espécies da fauna no Pantanal. Sabemos que muitos animais estão morrendo diretamente pelo fogo, outros morrem posteriormente aos cuidados de veterinários, mas o quanto essas mortes impactam as populações é algo absolutamente desconhecido”, disse.

Walfrido ainda explica que os incêndios em grandes proporções afetam a dinâmica e até a composição da vegetação do Pantanal e empobrece a qualidade dos habitats para muitas espécies da fauna. Para ele, é difícil mensurar o tempo necessário para que o bioma se recupere. “Podem ser muitas décadas, caso os incêndios não se repitam. No entanto, os cenários de mudanças climáticas prevêem uma frequência muito grande desses eventos climáticos extremos na região do Pantanal. Assim, esperamos que essas catástrofes devem se repetir. Cabe a nós, humanos, evitar ações de risco que causem danos ainda mais graves”, pondera.

No dia 28 de agosto, o Governo Federal escancarou o descompasso do Executivo e quase deixou o Pantanal à deriva. O Ministério do Meio Ambiente anunciou bloqueio de cerca de R$ 60 milhões em verbas do IBAMA e ICMBio pela Secretaria de Orçamento Federal e, como consequência, as operações de combate ao incêndio, não apenas no Pantanal como na Amazônia, que também sofre com as queimadas, seriam interrompidas. 

Mas o vice-presidente Hamilton Mourão, que preside o Conselho da Amazônia, falou que Ricardo Salles se precipitou e anunciou que não haverá qualquer interrupção.

Na última terça-feira (8), em reunião de Jair Bolsonaro com os ministros, o tema apareceu e foi alvo de chacota. “Tá pegando fogo no Pantanal?”, perguntou a blogueira mirim Esther, que tem sido colecionado aparições ao lado de Bolsonaro. Gargalhadas debochadas são seguidas da resposta: “Tá pegando fogo, mas o presidente mandou 10 aviões lá para ajudar a apagar”.

Tudo isso está acontecendo cerca de dois meses depois que o decreto 10.424/2020, chamado de Moratória do Fogo, assinado pelo presidente Jair Bolsonaro, proibia o emprego do fogo no Pantanal e Amazônia por 120 dias.

(*) Diferente de outras reportagens do Projeto SOLOS, esta não pode ser republicada sem prévia autorização