Gerald Bermúdez

A outra fronteira

22 de março de 2021

Xenofobia e miséria em meio à pandemia: o registro fotográfico do fluxo migratório de venezuelanos na fronteira sul da Colômbia e Equador

Sempre que se fala sobre migrantes venezuelanos na Colômbia, é comum usar Cúcuta ou Arauca como exemplo de fronteira. Pouco se fala de Ipiales, que é a fronteira sul entre Colômbia e Equador. 

Esse limite é importante porque é um ponto de passagem obrigatório para os países do sul que, para muitos migrantes, oferecem melhores condições de vida do que a Colômbia.

A pandemia da Covid-19 provocou em Ipiales, no momento em que escrevo essas linhas, uma quarentena geral. Essa situação que se apresentou em todo o mundo fez com que a vulnerabilidade dos migrantes aumentasse muito e muitos deles decidiram tentar regressar à Venezuela.

Depois da primeira onda, em meados de 2020, as estradas estavam cheias de quem pretendia regressar ao seu país. Quando as condições se estabilizaram, muitos pegaram a estrada para o sul novamente. Alguns ficaram presos em Ipiales devido ao fechamento das fronteiras, outros decidiram cruzar ilegalmente para o Equador.

Os mitos que alimentam a xenofobia são o pão de cada dia, mas os migrantes continuam como uma força imbatível, se movendo pelo continente. Como disse um jovem com sua mochila nos ombros: “Migrar não é crime”.

Os testemunhos que compõem esta história, ordenados pelos tortuosos caminhos dessa estrada, foram alcançados graças ao Fundo de Resposta à Pandemia de Rooted in Trust, uma iniciativa da Internews.

“Venho seguindo andando da Venezuela há 2 meses. Quero chegar no Peru”, Andrés, 21 anos.

Foto: Gerald Bermudez

“Aqui no Parque Santander vai encontrar de tudo: desde drogas e sexo, até coiotes que podem te fazer cruzar o Equador”, José, 35.

Foto: Gerald Bermúdez

“De tanto caminhar, meus sapatos ficaram destruídos e agora minhas sandálias. Agora tenho que ver onde vou conseguir algo para calçar meus pés. É como se os passos ficassem gravados nas pedras de tanto andar”, Alexi, 32.

Foto: Gerald Bermúdez
Foto: Gerald Bermúdez

“Desci da Venezuela até o Peru. Por causa da pandemia, estou voltando ao meu país. Se corro risco de ficar doente, é melhor estar perto da minha família. A minha máscara perdi há muito tempo na estrada. Se tiver sorte, você consegue uma carona em caminhões. Senão, você tem que andar a pé”, Mario, 21.

Mario, 21 | Foto: Gerald Bermúdez

“Quando você tem sorte e tem algum dinheiro, pode pegar um carro que te leva até a entrada das travessias ilegais para entrar no Equador”, José Gregorio, 35.

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O que você vê ali é Tulcán. Aquele riacho que você não consegue ver porque fica ao fundo do barranco é o Rio Chiquito, que é a fronteira entre a Colômbia e o Equador”, continua José.

Foto: Gerald Bermúdez
Foto: Gerald Bermúdez

“Por causa da pandemia, as entradas legais estão fechadas. Aqui o negócio é tentar cruzar se equilibrando. Os coiotes e os que vigiam os acessos são muito perigosos. Não deixam tirar fotos e fazer vídeos”.

Foto: Gerald Bermúdez

“Nos conhecemos em Cúcuta quando estávamos cruzando a Colômbia. Estamos vindo cuidando um do outro pela estrada desde que viemos para o sul. Vamos ver de seguiremos juntos no Equador”, Douglenys, 32.

Foto: Gerald Bermúdez

“Você come o que conseguir. Às vezes tem que seguir de barriga vazia, às vezes não”, continua.

Foto: Gerald Bermúdez

“Lá atrás está a Colômbia. Já se foram dois países e faltam outros três antes de chegar no Chile”, comenta José Gregorio.

A vista da fronteira Equador-Colômbia | Foto: Gerald Bermúdez

“O duro é o barro. O frio nem tanto, porque você vai se esquentando enquanto vai caminhando, mas o barro…”, Jhoan, 23.

Jhoan reclama do barro | Foto: Gerald Bermúdez

“Às vezes, o mais perigoso é quem vai com você pela estrada. É preciso sempre estar atento, não é um caminho fácil”, Jhoan, 23.

Migrantes descansam por um instante antes de seguir na caminhada | Foto: Gerald Bermúdez

“Sou mecânico de maquinário pesado certificado. Vou até o Peru, mas não tenho como avisar que vou cruzar o Equador. Vendi o celular faz uns dias para poder continuar”, Carlos, 36.

Carlos, 36, vendeu o celular para poder seguir | Foto: Gerald Bermúdez
O vírus é o governo | Foto: Gerald Bermúdez

“Aqui no Equador as coisas são muito diferentes. O câmbio em dólares acaba sendo mais fácil, mas termina sendo também mais caro. Você desce do ônibus e já sente que tem pouco dinheiro”, Jusmery, 41.

Passageiros do ônibus onde também estava Jusmery | Foto: Gerald Bermúdez

“Somos duas mulheres e sete crianças. Cruzamos por nossa conta e risco, sem coiotes. Perdemos uma mochila e uma jaqueta, que caíram no rio. Agora estamos molhados e com fome, esperando que nos mandem dinheiro”, continua Jusmery.

Jusmery | Foto: Gerald Bermúdez

“Nos deram uns cadernos para que as crianças pudessem desenhar e uma mapa para sabermos aonde ir em cada país”, Isabel, 37.

Foto: Gerald Bermúdez

“Você os vê cansados, com frio e com fome. Dá para perceber que o caminho é difícil, mas eles têm uma força que não os deixa parar ou desistir. Todos os dias eu acordo pensando que não dá para ficar sozinho sem ajuda”, voluntária Juliana, 26.

Foto: Gerald Bermúdez

“Aqui no abrigo tentamos garantir que eles possam descansar se estiverem de passagem ou que fiquem mais tempo se precisarem definir sua situação em Ipiales”, assistente social Sandra Soto.

Abrigo provisório de migrantes na fronteira | Foto: Gerald Bermúdez

“Com Jennifer, passamos por momentos muito difíceis, mas estamos felizes. Estamos no abrigo há seis meses porque a pandemia nos deixou sem casa e sem trabalho, mas tenho certeza de que conseguiremos recuperar nossas coisas muito em breve”, Arelvis, 25.

Arelvis e Jennifer com os filhos estão há seis meses no abrigo | Foto: Gerald Bermúdez

“Esta é a casa dos nossos filhos lá na Venezuela. Com o que Arelvis e eu economizamos, estamos comprando materiais e um parente está construindo”, Jennifer, 19.

Foto: Gerald Bermúdez

“Às vezes há conflitos, às vezes são muitos questionamentos. Há muita preocupação com a pandemia, não há clareza para quase ninguém. É preciso ser assistente social, conselheira e estar muito atenta do que precisa no abrigo”, Sandra Soto.

Foto: Gerald Bermúdez

“Aqui tentamos garantir que todos os migrantes que chegam possam comer e usar o banheiro enquanto seguem para a Colômbia ou Equador. Sem desinfetar as mãos, você não pode entrar nesta sala de jantar”, Rubiela, 36.

Posto de apoio na fronteira para comer e fazer higiene pessoal | Foto: Gerald Bermúdez

“Brincamos quase todos os dias e quero que aprendam a ler ou a escrever. É muito difícil quando a migração te rouba a infância. As crianças são mais criteriosas quando se trata de tomar medidas de biossegurança”, Alexandra, 25.

“É muito difícil quando a migração te rouba a infância” | Foto: Gerald Bermúdez

“Eu sou músico, faço o que posso para ajudar meus irmãos com a organização que temos, mas às vezes é muito difícil fazer esse trabalho e não ter emprego. Com a pandemia, tudo ficou complicado, quase ninguém está olhando para cantores ou artistas”, Yako.

Yako | Foto: Gerald Bermúdez

“Esta casa era uma associação cultural. Foi abandonada e ocupada por migrantes. Existem muitos mitos sobre eles, de que tiram nossos empregos, que tem Covid, que são ladrões. A verdade do que que vejo é que se trata de um universo de pessoas quem enfrentam a vida de maneiras muito diferentes”, Sandra Soto.

Foto: Gerald Bermúdez

“Nesta casa vivemos como uma comunidade. Eu sou a líder e espero que todos nós cuidemos uns dos outros, mesmo depois da pandemia”, Antonella, 28.

Foto: Gerald Bermúdez

“Tem sido difícil ser uma mulher trans e estar vivenciando essa situação de migração e pandemia”, desabafa Antonella. “Meu bem mais precioso é a carteira de identidade. É o que mais cuido e o que garante a minha defesa”.

Antonella é uma mulher trans | Foto: Gerald Bermúdez
Foto: Gerald Bermúdez

“Nesta casa somos várias famílias. Até agora ninguém teve Covid. Outras doenças, sim, e o atendimento médico não é o melhor”, conta Antonella. “O mais difícil é ter filhos. Muitos deles não sabem ler nem escrever e por isso é impossível entrarem para estudar. É uma vida muito triste ser criança”.

Foto: Gerald Bermúdez
Foto: Gerald Bermúdez

“Tive de trabalhar com tudo que me apareceu. O mais triste é estar longe do meu terceiro filho. O pai dele não me deixa vê-lo e é isso que me parte a alma”, Oleidys, 22 anos.

Oleydis, 22 | Foto: Gerald Bermúdez

“A morte da bebê ocorreu quando ela voltou do Peru. Eles a cremaram em Pasto e como não tenho dinheiro não posso recuperar suas cinzas. Enquanto isso, continuo vendendo rosários na rua com minhas outras duas filhas, esperando que algo aconteça que me permitirá voltar ao Peru”, Wilenys, 31.

Foto: Gerald Bermúdez

“Este cachorrinho que peguei na rua é meu melhor amigo. Todos os dias eu o levo ao quintal. Nem todas as pessoas o amam, mas eu o defendo”, Andy, 12.

Andy e seu cachorrinho | Foto: Gerald Bermúdez

“Vendo mais ou menos uns 100 donuts por dia. O triciclo já se pagou e estou economizando para fazer franquias e poder ganhar um pouco mais. Estava pensando em ir para o Peru, mas já fiquei em Ipiales. Aqui Eu posso trabalhar”, Alexis, 28.

Alexis, 28, sobrevive vendendo donuts | Foto: Gerald Bermúdez

“Voltei do Equador porque tive que levar um primo com HIV para a Venezuela para ser tratado, porque com a pandemia começaram a nos negar assistência médica”, Kendry, 29.

Foto: Gerald Bermúdez

“Meu namorado está no Panamá, espero que um dia possamos nos ver novamente. Quero vê-lo,  ver minha mãe e meu irmão novamente. Por enquanto espero descansar e continuar na estrada”, continua Kendry.

Kendry, 29, foi ajudar um primo que tem HIV a buscar tratamento médico | Foto: Gerald Bermúdez

“Em três meses, fui do Equador para a Venezuela e estou em Ipiales com a esperança de voltar ao Equador. Tem sido difícil, mas a recompensa é ter podido ajudar meu primo doente”, relata. “Quero que meu mundo volte a existir. Quero ir à praia, quero dirigir de novo, quero ver minha família de novo. Esses são meus sonhos”.

Kendry mostra seus pés cansados de tanto caminhar | Foto: Gerald Bermúdez
Os sonhos dos que estão na estrada longe de casa | Foto: Gerald Bermúdez
Foto: Gerald Bermúdez

“Às vezes você fica muito cansado, às vezes não quer se levantar, às vezes só quer ficar deitado na beira da estrada. Mas a família, os filhos, a necessidade te faz ganhar forças e seguir. E não parar para nada, nem mesmo a pandemia”, Carlos, 42.

Carlos, 42 | Foto: Gerald Bermúdez

Essa fotorreportagem foi publicada originalmente no site de Gerald Bermúdez e foi produzida pelo programa de incentivo da Internews para jornalistas em todo o mundo.