“Chegaram tocando fogo e dando tiro”, relata morador sobre ataque em acampamento do Pará

16 de dezembro de 2020

Vídeo mostra acampamento Osmir Venuto da Silva sendo consumido pelo fogo; com medo, camponeses afirmam que ataque teria sido promovido por pistoleiros de fazenda


As cenas são desesperadoras. “Pelo amor de Deus, vieram e tacaram fogo nas nossas coisas. Olha o que fizeram com a gente. Acabaram com as nossas coisinhas. Olha o que o povo desgraçado da Surubim faz e seus pistoleiros”. A voz é de uma moradora do acampamento Osmir Venuto da Silva, localizado às margens da BR-155, entre Sapucaia e Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, e aparece em vídeo gravado por celular.

“Chegaram tocando fogo e dando tiros e os companheiros tiveram que correr para não morrer”, relata outra testemunha em nota da LCP (Liga dos Camponeses Pobres).

Ao fundo, só é possível ver restos de estruturas de madeira completamente consumidas pelo fogo. Surubim é o nome da fazenda localizada ao lado do acampamento, onde viviam 56 famílias que sobrevivem da coleta de castanhas. Segundo relatos, ao menos quatro homens encapuzados participaram da ação.

Durante e depois: pertences e ferramentas de trabalho viraram cinzas | Foto: reprodução

Os camponeses afirmam que, após o ataque ocorrido no final da noite de segunda-feira (14), os pistoleiros teriam continuado a passar pela estrada efetuando disparos em direção ao acampamento com o objetivo de aterrorizar as famílias. Uma das camponesas, uma idosa com deficiência visual, quase se queimou junto a seu barraco.

Móveis e utensílios domésticos foram queimados | Foto: reprodução

O SOLOS apurou que, na manhã do dia 14 de dezembro, por volta das 11h, um funcionário da Fazenda Surubim teria passado pelo local e hostilizado os camponeses, chamando-os de “vagabundos” e mandando saírem da área “sob pena de verem todos os seus pertences e barracos queimados” e que isso seria uma ordem do “novo gerente da propriedade”.

Foto: reprodução

Os camponeses ocuparam a rodovia ao longo desta quarta-feira e apontam suposta inação da polícia com relação ao episódio de violência. Um acordo feito com a Polícia Rodoviária Federal fez com que o grupo desocupasse a via. Parte dos camponeses permanecem no local, outra parte foi para Eldorado dos Carajás e São José, por temerem que os agressores retornem para terminar de queimar 4 barracos ainda preservados.

Conflito deflagrado

As famílias acampadas são ligadas à LCP (Liga dos Camponeses Pobres), que vive uma disputa judicial com a propriedade do empresário Amilcar Farid Yamin, a quem acusam de fazer grilagem na região, há muitos anos. Desde 2015, as famílias, estão em área pertencente ao DNIT, portanto, pública e federal, depois que Farid moveu uma ação de reintegração de posse. Na época, houve um acordo junto a Comissão Nacional de Violência no Campo e, desde então, as famílias estão nesse espaço contíguo a fazenda.

Uma nota divulgada pelo LCP explica que nos autos do processo de reintegração de posse uma divergência entre os documentos apresentados pelo fazendeiro e as reais dimensões do complexo de Fazendas fez com que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA pedisse uma vistoria na terra, negada pela Justiça Federal.

“Há anos as famílias denunciam as violências sofridas, os ataques efetivados por pistoleiros, mas nenhuma atitude é tomada contra os grupos milicianos que atuam na região, consolidando um poder paralelo que já tanto vitimou aqueles que lutam pela efetivação de seus direitos e por uma vida digna”, diz trecho da nota da LCP.

Histórico de violência

Em 2 de dezembro do ano passado, o mesmo local foi alvo de ataques, dessa vez, envolvendo policiais da Patrulha Rural do 23º Batalhão da Polícia Militar do Pará que abordaram de maneira violenta, com uso de balas de borracha, 6 camponeses que retornavam ao acampamento após coletar castanhas. Como divulgado à época pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o MST, o acampamento vive histórico de violência e ataques que já vitimaram até mesmo crianças.

“De acordo com registros da Comissão Pastoral da Terra, apenas nos anos de 1985 e 1986, 29 trabalhadores rurais foram brutalmente assassinados nessa área [da Fazenda Surubim]. Dentre os assassinatos, registra-se o massacre de 17 peões, vítimas de trabalho escravo, ocorrida no início do mês de junho de 1985. As execuções dos peões teriam sido praticadas pelo pistoleiro Sebastião da Teresona e seu grupo, para evitar o pagamento de direitos trabalhistas”, publicou, há mais de um ano, o portal do MST.

Na ocasião do ataque do ano passado, entidades de Direitos Humanos, entre elas a CPT (Comissão Pastoral da Terra) divulgaram uma nota de repúdio e preocupação com a situação. A ação foi registrada em vídeo gravado com aparelho celular por um dos trabalhadores, comprovando as ilegalidades e abusos praticados pelos policiais.

Outro lado

O Projeto SOLOS tentou contato com dois dos advogados que aparecem em processo recente envolvendo Farid como representantes legais do empresário para questionar sobre as ameaças e os relatos dos camponeses que ligam a Fazenda Surubim ao ataque, mas, até o momento, não obtivemos retorno.

Também procuramos a Secretaria de Segurança Pública do Pará solicitando detalhes da investigação e se algum dos atiradores já foi identificado. Aguardamos um retorno.