À margem: na pandemia, ciganos lutam para existir

15 de setembro de 2020

Iberê Périssé

“O preconceito é assim. Quando a gente chega numa loja ou num mercado para comprar alguma coisa, todo mundo fica de olho em nós. O cigano tem uma fama muito ruim. Mas não é nada do que o povo pensa”.

É assim, sem meias palavras, que Rosalina Soares, 50 anos, conta como, muitas vezes, os ciganos são vistos pelos outros.

Localizado no extremo leste da cidade de São Paulo, em uma área particular, o terreno onde fica o acampamento cigano é formado por 40 famílias, cerca de 180 pessoas, que, como manda a tradição, se organizam em tendas. Valorizam a família, são hierarquizados na organização da rotina, especialmente no que diz respeito ao gênero, e reservados.

No Brasil, existem ciganos de três etnias: Calon, Rom e Sinti. No acampamento do Itaim Paulista, todos são Calon, grupo mais comum no país.

Foto: Iberê Périssé

A reportagem da SOLOS visitou o local e apenas mulheres aceitaram contar um pouco do dia a dia. É com elas, inclusive, que ficam as funções de cuidados com a casa, cozinha, costura e criação dos filhos. Algumas aceitaram falar sob a condição de não mostrarem o rosto. Com a pandemia, a vulnerabilidade do local ficou evidenciada.

“Aqui tem água porque é gato, tem luz porque é gato. Se vira como se pode”, conta Lu Inayah, coordenadora do Instituto Cigano do Brasil e Roda Cigana do Estado de São Paulo, frente que reúne a União Cigana do Brasil, Associação Nacional das etnias ciganas – Anec e o Instituto cigano do Brasil.

O instituto cigano e a roda cigana é constituído pela União cigana, Anec e Instituto cigano do Brasil

Lu Inayah explica que o nomadismo, uma característica histórica desse povo, tem sido deixado de lado pelo risco que constantes mudanças podem representar no momento em que estamos vivendo. Algumas das ciganas relataram situações de humilhação quando vão buscar atendimento médico, por exemplo. 

Os ciganos e a Covid-19

Uma carta divulgada pela Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) em 8 de abril, logo no início da pandemia, chamava a atenção de autoridades sobre essa falta de acesso para a população cigana aos cuidados básicos.

“Vivendo nas periferias, em casas ou acampamentos fixos, ou mantendo o nomadismo, em muitos casos as comunidades ciganas não possuem acesso a territórios com infraestrutura adequada, como serviços de água encanada ou luz elétrica, o que inviabiliza a segurança e as ações de higienização, tão necessárias e recomendadas pelos órgãos e profissionais de saúde”, diz trecho do comunicado.

Lu Inayah, coordenadora da Roda Cigana de SP, representante da União Cigana do Brasil | Foto: Iberê Périssé

Em consonância com Rosalina, Lu destaca que o preconceito contra o cigano acabou por construir um estereótipo e, guardada as devidas lutas históricas e mesmo a origem, é possível, sim, estabelecer uma comparação com outras minorias em direito que, muitas vezes, precisam batalhar para simplesmente ter a existência respeitada.

“O povo cigano está dentro da discussão da igualdade racial. Como todo mundo sabe, a questão da igualdade racial é uma luta da comunidade negra, e acabou agregando aos povos indígenas, quilombolas e ciganos”, avalia.

A principal reivindicação do grupo é conseguir uma estrutura melhor para se fixarem. Ao menos nesse período de tantas incertezas. 

Lu Inayah faz um apelo sobre respeito à diversidade. “Você não pode querer que alguém se adeque ao seu modo”. O povo cigano, na verdade, só quer poder viver da forma com que aprenderam, com dignidade e respeito às origens.

Colaborou: Maria Teresa Cruz