Leandro Barbosa

Entenda o que é “fogo contra fogo”

17 de setembro de 2020

Vídeo divulgado em redes sociais tenta criminalizar brigadistas do ICMBio durante procedimento de contenção de incêndio

Um vídeo circulou nesta terça-feira (15) nas redes sociais mostrando brigadistas do ICMBio (Instituto Chico Mendes) realizando um procedimento na Estação Ecológica de Taiamã, no Pantanal, no dia 13 de setembro, conhecido como “fogo contra fogo”. 

No vídeo, uma pessoa grava as imagens com um celular e é possível ouvir a narração dos fatos de maneira completamente deturpada: “Olha aí o brigadista. Em vez de apagar fogo, tá tacando fogo. É brincadeira”. A pessoa que está gravando vira o celular para si e está com uniforme do ICMBio.

Em nota, o instituto confirmou que o vídeo foi feito de maneira inadequada. “Ele foi produzido e divulgado por um brigadista que esteve em campo, trazendo uma versão errônea sobre a prática de que ele participara”. O esclarecimento veio nesta quarta-feira, horas depois de a mentira ser propagada.

Bruno Cambraia, analista ambiental do ICMBio e instrutor de brigada, enviou um áudio por whatsapp que foi compartilhado no Twitter explicando o que foi feito na região, que ainda está protegida das chamas que continuam se alastrando pelos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ele estava realizando o procedimento com os colegas do Instituto.

“Essa atividade consistiu em uma queima de expansão utilizando uma área mais úmida como ponto de ancoragem e usando o vento sul que começou a soprar na data de ontem que possibilitou essa atividade. A gente utilizou essa queima de forma a direcionar esse fogo de encontro a uma frente de incêndio que vinha avançando com força e que oferecia risco aumentar a área queimada da região”, explica o profissional.

A técnica utilizada do fogo contra fogo é uma forma de manejar as chamas de maneira a evitar que o incêndio se alastre. No final de agosto, a equipe da SOLOS esteve no Pantanal e acompanhou o trabalho de brigadistas que consistia exatamente nesta prática. “É a técnica usada quando é observado a direção do vento favorável a linha do fogo. Para proteger uma grande área, a gente precisa sacrificar muitas vezes uma pequena área”, explicou o Tenente Henrique.

Os aceiros, por exemplo, são outra prática bastante comum e que tem uma lógica muito semelhante, como explica notícia antiga no portal da Embrapa: “são faixas ao longo das cercas onde a vegetação foi completamente eliminada da superfície do solo e têm a finalidade de prevenir a passagem do fogo para área de vegetação, evitando-se assim queimadas ou incêndios”.

Buiú, coordenador de fazenda no Pantanal, explicou para a reportagem: “o fogo vem, dá com esse limpo e para por ali, porque está tudo rapado, não tem capim”. Em linhas gerais, o fogo não encontra o que queimar.

A reportagem verificou que as informações do vídeo divulgado nas redes sociais com brigadistas do ICMBio não procedem e apenas contribuem para a desinformação sobre o que acontece no Pantanal, dando força ao discurso do governo federal de que o incêndio no bioma é uma mentira.

O ICMBio publicou em seu portal uma nota de esclarecimento em que confirma que o procedimento foi realizado no local nos dias 12 e 13 de setembro e chama-se “queima de expansão, cuja técnica consiste em eliminar o combustível em pequenas faixas do terreno através da aplicação do fogo. O controle dessa técnica exige pessoal treinado e experiente, pontos de ancoragem muito bem definidos e condições meteorológicas favoráveis para que o fogo não se alastre e inicie um novo incêndio. Todas essas condições foram obedecidas e a queima foi considerada um sucesso. A Estação Ecológica de Taiamã continua protegida, sem incêndios no seu interior”, diz trecho da nota.