Leandro Barbosa

Governo Bolsonaro interrompe combate a fogo no Pantanal e Amazônia. Três horas depois, volta atrás

28 de agosto de 2020

Descompasso entre Ricardo Salles e Hamilton Mourão faz com que Governo Bolsonaro suspenda e depois retome operações de combate a incêndio e desmatamento

Os incêndios já atingiram mais de de 1,7 milhão de hectares no Pantanal só este ano, mais de 10% do bioma, entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, foi devastado pelo fogo.

De acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), essas duas últimas semanas de queimadas superaram todo o mês de agosto de 2019.

Na Amazônia Legal, entre 16 de julho e 15 de agosto,  foram registrados 20.473 focos de calor — dado que mensura locais de queimada, informa o Greenpeace. Mas o governo Jair Bolsonaro parece não se importar.

Foto: Iberê Périssé

Nesta sexta-feira, o Ministério do Meio Ambiente anunciou que as ações de combate a incêndios e desmatamento nos dois biomas seriam interrompidas. Três horas depois, às 19h54, no site do ministério de Ricardo Salles havia a seguinte atualização: “o Ministério do Meio Ambiente informa que na tarde de hoje houve o desbloqueio financeiro dos recursos do IBAMA e ICMBIO e que, portanto, as operações de combate ao desmatamento ilegal e às queimadas prosseguirão normalmente”.

O descompasso entre Salles e o vice-presidente Hamilton Mourão é que teria provocado tal situação. A Folha de S.Paulo informou que Mourão, que preside o Conselho da Amazônia, disse que o ministro Ricardo Salles se precipitou e que não haverá qualquer interrupção.

Isso tudo aconteceu um mês e meio depois que o decreto 10.424/2020, chamado de Moratória do Fogo, assinado pelo presidente Jair Bolsonaro, proibia o emprego do fogo nos dois biomas por 120 dias.

Foto: Leandro Barbosa

A nota do ministério informava que haveria bloqueio de R$ 20.972.195,00 em verbas do IBAMA e R$ 39.787.964,00 em verbas do ICMBio pela Secretaria de Orçamento Federal e as operações seriam interrompidas a partir de segunda-feira.

“No âmbito do combate às queimadas no IBAMA, [haverá] desmobilização de 1.346 brigadistas, 86 caminhonetes, 10 caminhões e 4 helicópteros. No combate ao desmatamento ilegal serão desmobilizados 77 fiscais, 48 viaturas e 2 helicópteros”, dizia a nota do ministério.

Foto: Leandro Barbosa

Além disso, no que diz respeito à atividade do ICMBio, 324 fiscais, 459 brigadistas e 10 aeronaves deixariam de atuar.

Existe uma relação direta entre queimadas e desmatamento: o fogo é uma das principais ferramentas utilizadas para o desmatamento, especialmente por grileiros e agricultores, que o usam para limpar áreas para uso agropecuária ou especulação. A prática se tornou ainda mais comum com a falta de fiscalização e o desmantelamento dos órgãos ambientais.

Fogo e fumaça em floresta, município de Apuí (AM), antigo projeto de assentamento do Rio Juma | Foto: Christian Braga/Greenpeace

Segundo o Greenpeace, a Amazônia, nos primeiros 15 dias de agosto, registrou 15 mil focos de calor. Ainda de acordo com a ONG, das 30 Terras Indígenas da região que mais queimaram no período de um mês, o total de focos de calor registrados foi de 868, um aumento de 3% em relação ao ano passado, quando foram mapeados 846 focos. A TI Munduruku é a que registrou maior número de focos de calor, 160, um aumento de 78% em relação ao ano passado.

Fire in the Jaci-Paraná Extractive Reserve, in Porto Velho, Rondônia state.
Queimada na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Porto Velho (RO) | Foto: Christian Braga/Greenpeace

“Os números evidenciam que a estratégia adotada pelo governo federal é ineficiente para conter a destruição da floresta mais biodiversa do planeta. Proibir queimadas no papel não funciona sem um trabalho eficiente de comando e controle exercido por órgãos competentes. Os números e as imagens falam por si: a Amazônia está em chamas e não é através da militarização da fiscalização que conseguiremos enfrentar a crise do desmatamento e das queimadas na Amazônia. O governo precisará fazer muito mais se quiser evitar os mesmos estragos do ano passado e ações de fachada não mudarão o cenário”, comentou Cristiane Mazzetti, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace, em nota da entidade.

Colaborou: Leandro Barbosa